sábado, 7 de Novembro de 2009

Esqueletos no armário

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À mesa de um sarcófago com vista para o rio entrechocam os ossos em gargalhadas nervosas, e batem na madeira com força demais para a frágil compleição das suas junturas secas. A comida que começam a despedaçar, e de que não precisam para nada, entra-lhes pelas mandíbulas hiantes e volta a cair pelas costelas e vem parar ao chão, mas eles não dão conta, fingem não dar, é preciso continuar a comer até ao fim se não o prato fica com o ar de que não está ali ninguém capaz de comer. Os movimentos dos ossos da boca são entendidos pelos outros por estarem a repetir pela milionésima vez as mesmas coisas, não porque alguma voz verdadeira delas saia. É coisa aterradora de se ver, a vontade de viver que têm estes mortos de longa data. Parece até que os olhos lhes servem para sorver a luz que vai declinando a tarde, e não são mais que buracos limpos pelos vermes. O grande riso dos ossos ensurdece tudo.

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sábado, 24 de Outubro de 2009

A capa, o livro

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Um livro e a sua capa começa por ser um conjunto de palavras e cores. Depois, a sua leitura é visual e sonora, dado que consiste em trocar as letras pelo seu som interior, e é uma experiência táctil, que tem a ver com os dedos, que sentem a textura do papel e a ductilidade e peso do volume.
Há muitas realidades, ou modos de sensação, na leitura de um texto, o que assim dito parece coisa abstracta.
Mas um texto em livro é um nó complexo de linguagens tudo menos abstractas. É como o hipermédia da comunicação electrónica - com o relevo, o peso, o cheiro a mais.
Todos os sensores estão ligados em directo, a verdade está ao alcance da mão.

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sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

Um mecanismo de desastres.

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Uma mulher muito bela mete-se num carro com um amante muito recente. Ele é frágil de corpo. Ela deixa que ele a acaricie. Páram o carro, internam-se pelo campo, e ela, quando o vê debruçar-se, tem a visão de um homem capaz de matar. Amam-se com violência. Ele grita e corre para o carro, ela chama por ele e ele não a ouve, deixa-a ali só com o vestido em cima do corpo. Atira-lhe o saco para a estrada e arranca.
O princípio é aceitar o desastre como fruto de uma premeditação sem sujeito, como a mancha que alastra ou a rouquidão que não passa. Os sonhos não compensam a dor: é isso a realidade. E ao acordar passaram trinta anos.

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Um mecanismo de astros.

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Garbo em Nova Iorque e Marlene em Paris escondem-se dos olhares dos outros porque se escondem também do seu próprio olhar, porque não são imortais e isso é uma ignomínia.

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quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

Teologia



Deus existe, evidentemente. É um tipo eterno, que não sabe o que há-de fazer à vida.
Mistura tudo com a impertinência dos sonhos.
Se encontra um problema, logo põe em acção um cortejo de assessores: os fantasmas.
Prefere  tudo a escolher um caminho razoável (de resto, as escolhas são feitas pelo destino).




segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

Estas Coisas

Não sei se fui eu quem viveu Estas Coisas. Houve em sonhos, algures, ou em momentos, vividos mesmo, coisas parecidas, raras. Mas Estas Coisas são o quê? De onde é que vêm? Quem mas dá, quem mas obriga a escrever, quem me dá o direito de as escrever, quem as viveu, ou as viverá, ou quem tem a ver com elas, ou quem as sente como próximas de sonhos que também teve ou momentos que também viveu, e se sim, depois o quê? Eu quero escrever só a verdade. Por isso queria contar sempre alguma coisa que tivesse vivido, e contar isso rasgando os adornos, safando os pormenores fictícios e as ilusões de feira com que a vida semeia os seus episódios. Quero dizer, não é novidade, o Divino Realizador também tem as suas falhas. Não atina muitas vezes com a distribuição adequada, os casais mais correctos, os crimes mais perfeitos, as paisagens mais desatadas, não resiste muitas vezes a meter o dedo ex machina da coincidência exagerada, como quando levantamos o auscultador e ouvimos falar a pessoa para quem íamos telefonar a seguir e de quem há cinco anos não sabíamos nada. Mas, desta vez, não só não vivi nem soube de se ter vivido nada disto como não reconheço nada do que tais figuras mostram. O Divino Argumentista não desenhou bem as personagens. Não sei quem são. Não existem, passam por mim vindas de filmes ou de conversas sobre outra coisa, ou pior ainda, dos meus medos ou dos meus desejos: o que seria insuportável. Existem, existiram, foi assim: era como eu gostava, ser parte da decoração. As personagens nem existem nem as imagino, nem estão cá nem na memória, nem perto nem longe da vista, nem me contaram o que são ou o que lhes agradava que fossem. São coisas, entram transportadas em fios de chuva, tão humanas como um cão. São alterações à superfície da água. São companhias de segredo. São riscos feitos no chão pela passagem dos anos. São entendimentos com um certo grau de certeza. São figurinos que pertenciam a peças anteriores. São palavras ouvidas do outro lado da parede. Não sei quem são.



Ficção Publicada



Livros

1986: Sub Estâncias, colagem, Lisboa, Black Sun Editores.
1989: Ao Cair da Noite, contos, Lisboa, Contexto.
1991: A Cidade Vermelha, romance, Lisboa, Contexto.
1995: Western, contos, Lisboa, Black Sun Editores.
2003: O Deceptista, contos, Lisboa, & Etc.
2004: Viagem ao Interior, contos,  Lisboa, & Etc.
2009A Flor Fatal, romance, Lisboa, Assírio & Alvim.

Dispersos

1984: A Evasão e O Emprego, dois contos em Correspondência Literária 1, Lisboa, Contexto.
1991: A Primeira Onda, conto em Vértice 37, Lisboa, Caminho.
1994: Não me Peças que Fique, conto no número de Verão da revista Marie Claire,
e Carta Branca, conto no volume colectivo Ícones, Lisboa, Quatro Elementos Editores.
1995: Gaiola, conto publicado em Vértice 64, Lisboa, Caminho.
1997: Ela, conto em Escritor 9, Lisboa, Associação Portuguesa de Escritores.
1998: Quadros, ficções breves publicadas no Jornal do Fundão, a 4 de Junho,
e Crónicas, ficções breves publicadas na Colóquio/Letras 147/148, Lisboa, FCG.
2000: ficções breves publiadas na revista Estudos Portugueses e Africanos 36, Campinas, Unicamp.
2001: ficções breves na revista Ópio 2.2, Lisboa.
2002: Pura Ilusão, conjunto de quatro contos publicados na revista O Escritor 15-16-17, Lisboa, Associação Portuguesa de Escritores.
2005: Técnica de Bem Cair, Cruz e Nada, três contos publicados na revista Telhados de Vidro 4, Lisboa, Averno.
2006: My Funny Valentine, conto publicado na revista Telhados de Vidro 7, Lisboa, Averno.
2007: Movimentos Literários, conto publicado na antologia Merry Christmas, Lisboa, Averno.
2008: O Último Barco, conto publicado na revista Telhados de Vidro 9, e Irmã Noite e Elementos de Quiromancia, dois contos publicados na revista Telhados de Vidro 10, Lisboa, Averno.
2009: A Aventura, conto publicado na revista Telhados de Vidro 12, Lisboa, Averno.